Seu Lobo

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terça-feira, 7 de junho de 2011

Eu, cara; eles, coração.


Voltei da minha visita, curiosa e meio constrangida pelo desafio, à Escola de Cegos do Maranhão.  Foi a primeira vez em que eu visitei esse trabalho. Não foi uma visita muito produtiva, pois os diretores não se encontravam no momento. A atendente, a jovem Maria Rita, é voluntária. Colabora três vezes por semana, nos telefonemas para doações.  Ela me forneceu algumas poucas informações. Deixei meu contato para que o presidente da escola, Sr. Antônio Rocha, marcasse pra conversar comigo. Maria Rita me falou que ele é completamente cego.

Eu quero saber mais sobre a instituição, qual sua natureza, como funciona, quais as fontes de financiamento e manutenção, se tem dinheiro público envolvido, como é a administração, a aplicação de recursos e a prestação de contas; que tipo de trabalho exatamente eles fazem, quem trabalha, quem faz o que e de que maneira; se têm algum planejamento de longo prazo, etc. Assim poderei avaliar a melhor forma de colaborar.

Fui para ver as caras. E as vi.  Vi jovens, crianças e adultos, homens e mulheres, completamente cegos. Um ou outro com cegueira severa. Vi olhos sem a parte preta (dá uma sensação de gastura na gente!), vi olhos sem brilho, vi olhares distante, outros sem controle das pupilas;  uns com olhos em cicatriz, outros com olhos fechados; uns com óculos, outros sem. Vim um adolescente de uns  16 anos simplesmente sem olhos – uma má-formação congênita!  Vi uma menina de uns 9 anos, tão linda, brincando, apreciando seus brinquedos com o tato.

O que essa gente faz lá?  Estuda. Isso mesmo!  É uma escola. Há livros em Braile, de matemática, português, história, geografia, ciências. A Prefeitura de São Luís disponibiliza duas professoras especializadas em Braile para as classes.  Há duas salas de aula. Os alunos são de São Luís e do interior do Estado. Os do interior moram na escola. Há dois alojamentos, masculino (o maior) e feminino.  Os alunos da capital vem todo dia de manhã e passam o dia na Escola. Há café da manhã, almoço e janta.  

A voluntária explicou que tudo lá é adquirido por doações. Tem empresas que fornecem a alimentação durante todo o ano. Ela não soube precisar detalhes. Disse apenas que todo o serviço é voluntário. A igreja católica faz missas aos sábados. Pessoas de igrejas evangélicas às vezes aparecem para ajudar. Há vários doadores e colaboradores voluntários. Perguntei se alguém era funcionário registrado da escola, não soube responder. A comida é feita por voluntários ou por pais de alunos. Nesse dia, a cozinheira tinha ido ao médico. Quem fazia a comida? Uma mãe de aluno.

Observei que há um conjunto de prédios novos recém edificados. São novas salas e alojamentos. Tudo muito bem feito, com lajotas, bem pintados, com capricho. Causou-me boa impressão. O terreno é grande – assim, no olhômetro, estimei uns 100m x 100m, ou seja, 10.000m2, na margem da avenida mais movimentada (e engarrafada) da capital (Av. Jerônimo de Albuquerque, quase em frente ao Hospital São Domingos). Há árvores frondosas – mangueiras e outras – com boa sombra.

Como disse, vi caras. E ao vê-las, ardeu-me o coração. Eles, contudo, não vêem caras. Vêem apenas o coração.   

Continua...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Entre quatro paredes - A missão



Uma vez eu e minha irmã, Prof. Miriam Sousa, fomos falar com o Dr. Carlos Sebastião Silva Nina, ex-presidente da OAB-MA (1986/89), acerca das humilhações a que são submetidos familiares de detentos nas visitas. Ele deu uma resposta dura, jamais esquecida: "Vocês só estão preocupados com esse problema por que o estão vivendo na própria pele".  Era verdade!  Era verdade então e continua sendo agora, pra nós e pra quase todo mundo. Quem se preocupa com os cadeirantes? Quem pelos drogados?  Pelas mães coitadas com filhos no colo nas filas dos SUS da vida? Pelas crianças aidéticas órfãs? Pelas crianças nos corredores dos hospitais de câncer? Pelas de rua? Por aquelas com necessidades especiais? 

Fora raras e esporádicas exceções, quem?  Resposta: os próprios familiares!  Ou, ainda mais propriamente, as mães! Elas, em último caso, vão até a última e, em seguida, depois da última milha.

Temos nossa própria vida pra cuidar. E não é pouco. Os desafios do mundo moderno são enormes. Assegurar nosso lugar ao sol, nossa própria sobrevivência com dignidade, nossa saúde, a provisão para os nossos filhos!  Eu sou assim. Você é assim. Somos todos assim!  Aqui e ali aparece um que fura esse padrão, um que sai do seu nicho, que fura a bolha, sai das quatro paredes que cercam seus interesses e os de seu grupo familiar pelo qual seja diretamente responsável. 

Pagamos nossos impostos - e não são poucos!  Uma boa parte de nós trabalha duro e mal consegue superar a base da pirâmide de Maslow. A maioria apenas sobrevive nessa base. A vida moderna organizou-se de tal forma que exige uma estrutura cada vez maior e mais dispendiosa para garantir a dignidade e o bem estar pessoal e da família. E ainda sofremos diuturnamente a pressão para consumir. "Compre, compre, compre, compre agora, não deixe para amanhã, é só hoje, tá acabando, aproveite, estoque limitado".  Nem nos apercebemos que amanhã, depois de amanhã, depois de depois de amanhã, a mensagem é a mesma!  (Bom, mas isso é assunto para outro post).

Tá certo, tá certo... é difícil! Mas, como diria eu (pois gosto de dizer sempre isso), "é difícil é um préido arto".  Sair das quatro paredes é um desafio. Fazer isso de vez em quando, já é alguma coisa. Fazer disso uma missão, bem, é para poucos. 

Por que estou escrevendo isso agora?  Porque ontem à tarde recebi uma ligação da Escola de Cegos do Maranhão (ECEMA), pedindo ajuda para comprar duas bengalas. Queriam mandar um motoqueiro aqui pegar o dinheiro, com o recibo. "Absolutamente não, não vou fazer isso, tá doida?" - respondi. "Vou passar aí amanhã de manhã e ver a situação pessoalmente". Eu não iria entregar dinheiro assim para um motoqueiro com base num telefonema, claro. Depois fiquei pensando "Seria mais simples do que ir lá, pois assim corro o risco de me envolver, de me comprometer".  Nesse momento Dr. Carlos Nina abriu sem bater a porta do meu escritório mental.  Fela-da-mãe! Pensei que ele tinha sumido, depois de 25 anos!

Tou indo agora na ECEMA. 

Fui!