Seu Lobo

Seu Lobo
Ele tá vindoooo! Uhauuuu!

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Eliana Calmon convoca Jesus por testemunha.

Jesus certa vez contou uma parábola um tanto quanto insólita. Era pra incentivar os crentes a orar a Deus sem desistir. Até hoje sou enculcado com esse negócio de orar, qual o verdadeiro sentido da oração. Se Deus sabe tudo o que precisamos e o que é importante para nós e ele é bom e nos ama, por que Jesus insistiu tanto para que orássemos sempre?  Bom, agora isso não vem ao caso. O importante é que Jesus contou a tal parábola insólita. A propósito, o que é “insólita”? O dicionário diz que é a forma feminina de um adjetivo, que fala de uma coisa que é inesperada, estranha, surpreendente, pouco usual, inusitada. Usei esse adjetivo para essa parábola porque eu sempre me surpreendi com ela, nunca esperaria esse tipo de comparação naquele ponto do discurso de Jesus, quando ele falava da necessidade de o crente orar sem desistir.  Mas, homem, vamos à tal parábola insólita, por favor!

Então tá. Pode acha-la no evangelho de Lucas, capítulo 18, versículos de 1 a 8. Jesus disse que uma certa viúva procurou um juiz para que este julgasse sua causa que tava engavetada. Coitada da viúva, pobrezinha, sem poder pagar “adevogado”, nem oferecer algum percentual da causa, vê o tempo passar e nada de julgamento. Nada se sabe sobre que causa era essa, apenas que era contra “o meu adversário”. A velha tava vendo a hora morrer antes do tal juiz decidir. Mas Jesus disse que a pobre todo dia ia ao fórum: “Doutor, julga minha causa”. Imagina o doutorzão todo “nos trajes”, todo protocolizado, descendo do seu Landau (faz tempo, gente!) e dirigindo-se para os degraus do prédio imponente, apressado! A pobrezinha ali, na sua insignificância, de vestido preto, roto, cabelo desgrenhado, cheirinho de talco Barla, quatro dentes na boca... “Doutor, julga minha causa!”. Só dizia isso. Gritava, na verdade, meio que de longe. O juiz olhava “de esguelha” e dizia consigo mesmo “Ô velha chata... vou julgar a causa dela hoje!”. Mas, quando sentava na sua sala chique, telefone toca aqui, celular ali, é o Colaço de Herodes, é Dr. Astúrius, o Centurião Maximus lhe espera, Princesa Judite mandou um bilhetinho, videoconferência com o Procônsul Cesárius... e vai que vai, vira daqui, puxa dali...  Acabou o dia. Afinal dia de juiz é mais curto, não se esqueçam. E a semana também, pois ele chegava de Jerusalém na 2ª à tarde, trabalhava de terça a quinta e voltava na sexta cedinho pra a capital (isso vem de longe, gente! De looonge!).   Dia seguinte, lá se vem o Landau de novo. Motorista desce e abre a porta para o togado. Ele corre apressado para subir os degraus e... “Doutor, julga minha causa!”.  “Putsgrila, de novo essa velha! Caramba, eu vou julgar a droga do processo dela agooora, antes de começar qualquer coisa. Não aguento mais esse chafurdo”.  Lá dentro, manda o oficial procurar o processo. “Doutor, nós não botamos ainda no computador os processos velhos, só os novos. O dela deve de tá lá na Escola de Tirano. Vou mandar o pessoal localizar. Mas vai levar bem uma semana, eu acho”.  “Não é possível! Mais uma semana de a velha gritando na escadaria!”. E assim foi. Todos os dias da semana seguinte, a velha lá: “Doutor, julga minha causa”. Té que um dia, o juiz recebeu o processo. Tava cheio de pó. Fazia uns 2 anos que faltava só um despacho dele. Era um caso simples, muito simples. Só precisou escrever duas linhas e assinar. “Ave-maria-cruz-credo! Tou livre! Publica aí no Diário Oficial de Roma e comunica logo àquela doida lá na calçada. Não quero ouvir mais seu grito amanhã!”.

Faltou eu dizer só um detalhe: Jesus falou que esse juiz era de um certo tipo: dum tipo que “não temia a Deus nem respeitava homem algum”.  Conhece algum juiz desse tipo hoje em dia? Eu só mudaria a última parte: “nem respeita homem algum que não seja influente”. Creio que Jesus queria dizer isso mesmo, pode ter certeza. É linguagem hiperbólica.

É ou não é insólita essa parábola? Por que?  Porque é meio estranho ilustrar a resposta de Deus às nossas orações com a do tal juiz, não?  Jesus encerra a parábola assim: “Considerai no que diz este juiz iníquo: ‘Bem que eu não temo a Deus, nem respeito a homem algum;
todavia, como esta viúva me importuna, julgarei a sua causa, para não suceder que, por fim, venha a molestar-me’”. E, em seguida, Jesus fecha com a aplicação:  “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?”  Ponto.

Mas, pera aí, como foi que Jesus referiu-se ao juiz?  “Juiz iníquo”!  Sim, Jesus disse que o juiz era iníquo! Tinha desse tipo naquele tempo. Continua hoje. Certamente tinham “adevogados” iníquos naquele tempo; tem também hoje. Assim como engenheiros iníquos, professores iníquos, empresários, psicólogos, médicos, administradores, cientistas, sociólogos, escritores, padres, pastores, motoristas, pedreiros, pais e mães de família, negros, brancos, asiáticos, héteros e homossexuais, políticos.... a cretinice não tem fronteiras. É democrática; ampla, geral e irrestrita!

Então por que o rebu geral nas cortes brasileiras quando a ministra Eliana Calmon disse que “há juízes criminosos infiltrados no judiciário”?  É ou não é verdade? Quem pode negar isso? Quer dizer que podemos afirmar que há gente desonesta infiltrada em tudo que é grupo humano, menos dizer isso dos juízes, não é?

Os juízes honestos, íntegros, corretos e éticos – a maioria – não se sentiram ofendidos pelas declarações da Ministra. Pelo contrário, concordaram plenamente e deram apoio a ela, pois sabem, mais do que ninguém, que a moralização do judiciário vai ser boa para eles e para a sociedade.  Contudo aqueles que temem, por alguma razão, vestiram a carapuça.

Dona Eliana, a senhora está acompanhada de ninguém menos do que Jesus Cristo em sua afirmação! Não é uma companhia de se desprezar, não é mesmo?

sábado, 1 de outubro de 2011

Tente explicar I



Menino de 10 anos, de família tranquila, de pais evangélicos, querido por todos, bons relacionamentos no lar e na vizinhança. Na escola boas notas, amizades, elogios. Na igreja toca bateria no grupo de louvor. Vive bem, sem conflitos com o único irmão, mais velho, de 14 anos. Família sem grandes posses, mas financeiramente equilibrada.  Um belo dia anuncia que irá matar a professora. Os poucos colegas de classe que ouvem essa história acham-na tão absurda que nem consideram a hipótese de leva-la a sério. No dia seguinte, pega o revólver do pai, policial, que sabia estar escondido em certo lugar. Põe na mochila. O pai leva os irmãos à escola, à pé, pela mão, como todo dia, pois moravam a um quarteirão do colégio. Um dia como outro qualquer. Não foi.

Ao chegar em casa para pegar o revólver para o trabalho o pai não o encontra. Desesperado liga para a esposa. Ela diz que não tem ideia do que ocorreu. Mais desesperado ainda o pai corre à escola e manda chamar os filhos. Eles descem e dizem que não pegaram a arma. “Como eles não costumavam mentir e falaram com tanta segurança, acreditei piamente” disse depois à polícia. O pai volta pra casa e continua a procurar a arma. Fica imaginando que talvez algum estranho a tenha pego. Não, nada havia que indicasse essa hipótese. Onde estaria essa arma? O pai estava convencido que não estava com os meninos. Estava.

A notícia correu pela rua a partir da porta principal da escola como um rastilho de sombra lúgubre, um rastro do pó escuro de morte. Percorre as ruas em todas as direções. Bate na porta do pai que, ao telefone, ligava para os companheiros de farda tentando uma explicação e buscando ajuda acerca do sumiço da arma. Não precisava mais. A resposta veio de chofre: seu filho mais novo acabara de atirar contra a professora e depois contra a própria cabeça. Acabou.

Essa nem Freud explica! Os psicólogos e outros profissionais das humanidades estão perplexos. Nós todos, mais ainda que eles. Pode ser que, mais tarde, depois de muita investigação e análise de novos dados e fatos, cheguem a alguma mínima explicação. Talvez. Somos pessoas de senso. As coisas têm que fazer sentido para nós, ainda que menos do que precisamos. Nós precisamos de sentido nas coisas, sentido da vida.

Para nós fica a inquietação, a certeza que, afinal, não chegamos a conhecer nem a nós mesmos, nem a humanidade que nos cerca. “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia” escreveu com costumeira lucidez o grande Sheakpeare na sua notável obra Hamlet. Sim, muitos mistérios, muito mais do que podemos supor, não apenas na vã filosofia mas em tudo o que concerne à nossa vã condição humana. 

Segue a vida. Enquanto seu lobo não vem. Que esse acontecimento ao menos sirva para nos deixar mais humildes, conscientes de nossas próprias limitações. E que cada pessoa encontre o sentido da existência, da espécie e da sua própria, pois que dentro de cada um clama uma ânsia de infinitude que nunca pode calar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Aulas de Japonês







Certamente não interessa muito para a 99,99% do povo brasileiro assistir aulas de japonês. Mas bem que seria de grande proveito aprender aulas de japoneses. Tem duas bem práticas e incomparavelmente mais simples do que os complicadíssimos ideogramas. Uma vem do campo ético e outra da cidadania.

A lição de japonês do campo ético é aquela que veio da TV, que diz que os japoneses encontraram milhares de carteiras porta-cédulas e cofres nos escombros do tsunami. Neles o equivalente a cerca de 78 milhões de dólares – isso mesmo: 78 MILHÕES DE DÓLARES – correspondente a perto de 125 milhões de reais. O valor é próximo do maior premio da Mega-sena já pago no Brasil (145 milhões de reais em 2009).  O “pior” (para vergonha nossa): a polícia japonesa montou um comitê especial para localizar cada um dos donos da grana e devolver pessoalmente cada centavo. (Pare e pense na polícia brasileira!) Os policiais ficaram satisfeitos por conseguirem devolver mais de 90%, mas a maior frustração – que resultou em pesar público – foi não ter conseguido localizar todos os donos. O resto do dinheiro teve que ser destinado a um fundo de recuperação patrocinado pelo Governo. E, “pior ainda” (mais vergonha para nós): não apareceram os aproveitadores (tão típicos da nossa cultura) para “reivindicar” o que não havia sido identificado. No Brasil vira notícia de destaque nacional, digna de louvor e premiação quando UMA pessoa acha UMA pasta com UM mil dólares e devolve.  Precisa falar mais alguma coisa?

Outra aula de japonês (também deu na TV, no Jornal Hoje do dia 29/09/11): No Japão as crianças ajudam diariamente na limpeza da escola onde estudam. A reportagem mostrou as cenas de crianças de 8 a 12 anos varrendo, passando pano de chão, limpando carteiras, mesas, recolhendo o lixo de cada dia depois das aulas. Imagine a compreensão da importância de ter um ambiente limpo quando a própria criança participa da tarefa de limpá-lo! Será que ela vai achar tão natural jogar lixo no chão como as daqui? “Trabalho infantil” – dirão as ONGs extremistas brasileiras! “Onde já se viu, que absurdo! Criança é pra brincar.”.  Sem dúvida o que as crianças fazem no Brasil – sujar a escola para os outros limparem – deve ser o correto, não é mesmo?

Pensando bem, essas lições de japonês talvez sejam muito mais difíceis de aprender do que os ideogramas da língua.  Ou não?

  

domingo, 18 de setembro de 2011

É o fim da Lei Seca?



O STF acabou de desclassificar o crime doloso cometido por motorista embriagado, reclassificando-o para homicídio culposo.  O caso deu-se no julgamento de um HC em favor de um acusado de, em estado de embriagues alcoólica, atropelar e matar uma mulher que caminhava na calçada, numa pequena cidade do interior de SP. O HC foi concedido agora, dia 14 de setembro de 2011, pela primeira turma do STF. A ministra relatora, Carmen Lúcia, votou pela denegação do HC. Porém o Ministro Luz Fux, divergindo da relatora, foi acompanhado pelos demais e o HC foi concedido. Este julgamento marca  a história do judiciário brasileiro pois inicia uma compreensão bastante diversa do que vinha sendo seguida nas instâncias inferiores.

Li o voto do Ministro Fux. Para mim, leigo no assunto e apenas um cidadão indignado, não foi nada fácil entender. Os especialistas que se manifestaram em blogs e reportagens pela internet foram, na maioria, favoráveis ao STF. Então, quem sou eu, né?

Pelo que eu entendi do que disse o ministro Fux não ficou provado que o sujeito queria matar aquela pessoa, nem que anuiu com o fato. Também  não bebeu premeditadamente para matar. Diz ainda que a diferença entre o dolo eventual e a culpa consciente reside justamente na pretensão original antecedente ao fato.  Assim, segundo o ministro – que, aliás, como é de praxe nas cortes, alicerçou seu voto com farta doutrina e jurisprudência - ninguém se embriaga e em seguida vai dirigir pensando em matar especificamente alguém – a não ser que isso fique provado, já que é possível a hipótese. As pessoas embriagam-se e vão dirigir, sabendo do risco de matar, mas esperam que não aconteça nada.  Isso configura apenas negligência pela violação do dever de cuidado. Já o dolo requer a intenção e a assunção do risco de produzir o resultado morte. Em suma, ninguém, exceto prova em contrário, dirige embriagado com a intenção de matar. Então tá.

Não tenho saber jurídico para contestar. Só sei que, pelos noticiários nos jornais e na TV, ao que parece, na Europa em geral e nos Estados Unidos a legislação é bem mais rígida nesse aspecto, principalmente, quando há morte provocada em decorrência de embriaguez.

A sociedade brasileira logrou acreditar que, com o advento da Lei 11.705/2008 - a chamada Lei Seca – as mortes no trânsito diminuiriam drasticamente. As estatísticas inicias mostraram-se assaz favoráveis. Porém, com o tempo, logo veio a ineficiência dos órgãos e o afrouxamento da fiscalização. A coisa perdeu seu inicial impacto.  Em seguida entrou em evidência o tal princípio da não produção de prova contra si mesmo, que desobriga o motorista de soprar o bafômetro.  Depois, veio a lei que praticamente elimina a prisão preventiva em crimes com pena mínima até 4 anos (Lei 12.403/2011). Agora essa decisão do STF, ainda que, segundo os entendidos, correta, banaliza ainda mais as expectativas do cidadão e lança uma nuvem escura sobre a tão desejada paz no trânsito.  

Então, é isso. O que eu posso dizer mais? Nada. Vou apenas ironizar com minha indignação: Pode beber à vontade. Por que abrir mão do prazer de uma latinhas de cerveja? O risco de acidente é administrável, não é? Acredite, você é o cara. Vai chegar em casa sem problemas. É só ter cuidado. Você pode, sim. Beba numa boa, depois pegue seu carro e vá para casa. Vá devagar e com cuidado. Provavelmente nada vai acontecer. Se for pego numa blitz, não sopre o bafômetro nem faça aqueles testes que eles pedem.  Recuse-se, pois você tem esse direito. Caso, devagar ou em alta velocidade – tanto faz – atropele e mate alguém, calma! Não é o fim do mundo! Você não será preso. Você não queria fazer isso, né? Foi sem querer “querendo”. Homicídio culposo não dá cadeia, nem antes e nem depois do julgamento.  Se condenado, terá uma pena de 2 a 4 anos de prisão, que será convertida em pagamento de fiança, ou monitoramento eletrônico, ou recolhimento domiciliar noturno, ou proibição de viajar ou frequentar bares, ou outras coisitas menores.  Mas, por favor, não tenha a desdita de atropelar e matar, digamos, o filho de um... (oops... melhor não falar).  


Desculpem-me. São palavras tolas essas. Desconsiderem, principalmente a última frase, muito infeliz.  Foi só desabafo.


O que eu desejo é que haja mais justiça. Se o STJ está correto em desclassificar o dolo na embriaguez ao volante, se o Legislativo está certo em flexibilizar a prisão para o homicídio culposo; se ninguém é obrigado a soprar um bafômetro, ou a responder aos testes de embriaguez, ou a colher sangue para análise de teor alcoólico, se a fiscalização não funciona....   só espero que os especialistas reavaliem a questão e encontrem não só uma maneira de fazer vigorar de verdade a Lei Seca, como também uma fórmula mais justa de penalização para quem, bêbado, mata ao volante. Do jeito que está não pode ficar. Ou pode?

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Qualidade na escola pública. O que queremos?




Qualidade é hoje a palavra da moda no mundo empresarial. Foi o engenheiro americano William Deming que a pôs em evidência na indústria japonesa no pós-guerra. O núcleo desse conceito subverte o paradigma anterior: a melhoria da qualidade resulta na redução das despesas e no aumento da produtividade. Antes a indústria tinha que aumentar a produção de bens de consumo. Qualidade não era tão importante e representava um custo a mais. Deming contrariou essa lógica e revolucionou os princípios da nova gestão industrial. Como consequência desse novo valor na gestão a importância do planejamento ficou ainda mais evidente.   Gerenciar sem olhar para o futuro é perda de tempo, recursos e gera atraso.

Que boas lições para o setor público. Especialmente para os ministérios de base, como educação, saúde e segurança pública.  

Deming elaborou os seus famosos 14 pontos para a gestão da qualidade total (veja em http://pt.wikipedia.org/wiki/W._Edwards_Deming).   Há controvérsias em torno deles, claro. Mas tem coisas interessantes. Por exemplo: 1-Criar constância de propósito de aperfeiçoamento de produto e serviço. 4-Acabar com a ideia de negócio compensador baseado no preço. E 10-Eliminar slogans, exortações e metas numéricas dirigidas aos empregados.  Se pelo menos esses três princípios fossem aplicados à educação, por exemplo, teríamos uma pequena revolução  iniciadora de uma grande mudança.

Como assim? O item 1-constância de propósitos de aperfeiçoamento até dá pra entender:  focar na melhoria e não apenas na produção. Produzir mais, sim, mas também produzir melhor. Produzir mais do melhor. O que aconteceu no MEC com sua política de universalização do ensino? Produzir mais do ruim, ou seja, mais educação ruim para mais gente; mais péssimas escolas para mais brasileiros.  A que isso nos leva?  Qual indústria sobreviveria enchendo o mercado de canetas que falham, tênis que rasgam-se ou de cadeiras que se quebram? Onde um país quer chegar multiplicando escolas que não ensinam para alunos que não aprendem?

Certo. Mas, e quanto ao ponto 4? Negócio compensador? Negócio no setor público? Sim, pois o setor público tem uma lógica dos negócios no que tange ao seu lado político. E o retorno, o lucro da política, chama-se voto. Quanto mais produtos vender, mais retorno terá. Quanto mais “obras” se fizer, mais votos em retorno. E com mais votos, mais tempo no poder. E o poder é o grande alvo dos políticos corruptos. Então, você anda pelo interior dos estados nesse brasilzão e cansa de ver Escola Fernanda Sarney, Escola Municipal Mário Covas, Centro Educacional Antônio Carlos Magalhães, Grupo Escolas Nome-de-político-qualquer e por aí vai. Quantidade dá voto. Fachada dá voto.

E o ponto 10: eliminar slogans e metas numéricas. Aí a coisa pega. Cada governo que entra adota uma logomarca diferente da oficial e cria um slogan. Assim driblam a lei que proíbe a personalização da função pública. Basta olhar a logomarca que o eleitor já sabe quem é o governador. Botar a logomarca em obras públicas então, perpetua a espécie. E tome números. Números, números e números. É o que importa. Metas numéricas. Quem vê as estatísticas de vagas na escola pública brasileira fica impressionado.  Mas todos sabemos que a maioria das escolas públicas do ensino básico no Brasil encontram-se em estado deplorável.

É hora de rever essa política. Hora de investir mais em Educação com E maiúsculo, centrada no aumento da qualidade do ensino. Os resultados vão demorar 15, 20 anos para aparecerem. Mas já se passaram 26 anos do regime militar e nada de resultados. Chegamos ao caos. Continuar com essa política é suicídio. Ou preservação do status-quo. Será isso que eles querem mesmo? Tomara que não.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rosete no país do nunca-antes.




Rosete, uma brasileira. Pobre. Família típica dentre muitas por aí. A Dona Mãe de Rosete ficou órfã de mãe aos 8 anos, viveu com seus três irmãos e com o pai, mas logo os mais velhos casaram-se. A Dona Mãe de Rosete, num meio social de pobreza e subsistência, sem possibilidade alguma de educação, só tinha um destino: casar-se nova. Casou-se aos 15. Teve cinco filhos. Rosete foi a penúltima.

Rosete cresceu. Viu pouca convivência de pai e mãe. Já adolescente, viu pai e mãe juntos mas separados, apenas morando sob o mesmo teto. Conflitos, desencontros, discussões, brigas, sofrimento, poucos momentos de alegria.

Rosete viveu sua adolescência no momento em que o mundo dava sua grande virada social e cultural. O celular e a internet chegaram e transformaram a maneira como as pessoas se relacionam. Revolução dos valores! O mundo virou de cabeça pra baixo. Novos grupos de validação da moral e da ética, em grande vantagem sobre a família, a igreja e a escola. 

Rosete descobriu que a vida sexual livre era possível. Deus não castigava, não mandava um raio fuzilador sobre o pecador. E ainda dava até pra ganhar algum dinheiro. A tentação era grande. Mas Rosete não queria aquilo. Antevia qual seria o  fim. Mesmo sem o freio da religião funcionando, Rosete usou seu próprio freio. A saída? Mais uma vez, casar-se. E Rosete casou-se. Com um jovem também, trabalhador, que dá duro.

O relógio toca às 5 da manhã todo dia na casa de Rosete, na capital onde mora com seu marido. Eles se arrumam e saem apressados. O café, no trabalho. Andam 15 minutos até o primeiro ônibus, que passa pontualmente às 5:30h. Se perderem esse, chegarão atrasados. Próxima parada, terminal da integração, depois de 40 min de viagem. De lá, outro ônibus e mais meia hora até ao trabalho. Entram às 7 da manhã, saem às 16h. Hora e meia e dois ônibus depois, de volta à casa, lá pelas 17:30h. Tomar banho, lavar roupa, arrumar a casa, fazer compras, fazer comida e tudo o que der pra fazer até às 18:30h no máximo, pois Rosete tem que sair nessa hora, andar um quilômetro e meio apressada pra chegar, suada e arfante, à faculdade particular onde faz o curso de administração. Aulas até as 22:50h. O marido de Rosete vai busca-la. Andam um quilômetro e meio de volta, numa região perigosa, àquela hora da noite.  Depois do banho, lanche, soltar o botão do despertador e cama.

Essa rotina repete-se seis dias por semana. O sábado é um dia quase comum. Eles apenas chegam em casa coisa de uma hora mais cedo. Só sobra o domingo, onde Rosete vai de manhã pra a igreja. É onde respira social e espiritualmente, onde encontra pessoas que lhe abraçam, que conversam com ela, beijam e perguntam como vai sem ser por educação.  À noite, quando dá, volta à igreja, dessa vez com o marido. Tempo pra estudar? Pouco. Rosete tem que se contentar com o que aprende na sala de aula. Leitura complementar, quando? Como? Onde?  Segue a vida, Rosete, sem novela, sem noticiário, sem internet, sem estar no mundo, simplesmente por: falta de tempo. A prioridade é sobreviver.

Rosete e seu marido recebem líquido R$ 1.540por mês, somados os dois salários. Pagam R$ 250 de aluguel e R$ 400 da faculdade. Sobram R$ 890 para todo o resto: água, luz, telefone, gás, alimentação, vestir, calçar, ajudar a família, etc., etc. Pra duas pessoas, sem filhos, dá de sobra. São quase R$ 30 por dia, uma “fortuna” se for ver a miséria em volta. Eles reservam um pouco para uma poupança, para as emergências.  Ela os salva quando atrasos salariais acontecem.  Essa é a classe que fugiu da miséria e adentrou à linha de consumo. E essa é a “educação” a que essa classe tem “direito”.

Quantas vagas no ensino superior no Brasil são ocupadas por Rosetes?  Qual a importância dessas estatísticas que dizem que o governo do nunca-antes propiciou não-sei-quantas-mil vagas para os pobres no ensino superior? Certamente é “menos ruim” assim, mas é isso que queremos? O menos pior? Isso é normal? Isso é o possível? Essa é a sociedade que estamos construindo?  Onde vamos chegar com esse sistema?

Investir na educação básica deveria ser a maior de todas as prioridades. Mas isso é pra outro post. Por hora basta. Rosete, seu marido e milhões de brasileiros como eles são felizes ainda. Milhões de outros não tem a chance de apenas subsistir de forma semelhante.  E o presente não aponta para nada de tão diferente no futuro. Assim penso eu. E você?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Eu sou Honesto?


Será que é possível aferir o grau de honestidade de uma pessoa? 


Tá Reclamando do Lula? do Serra? da Dilma? do Arruda? do Sarney? do Collor? do Renan? do Palocci? do Delúbio? Da Roseana Sarney? do Jucá? do Kassab? Dos mais 300 picaretas do Congresso?


Perambulando pelos sites na internet encontrei um texto sem autoria definida que fazia questionamentos éticos aos que facilmente gostam de criticar os políticos corruptos. Imediatamente tive a ideia de ajustar aquelas questões e criar um teste de honestidade.



Esse teste não tem valor científico, pois a moral e a ética estão fora do campo da ciência. Não há como aferi-los matematicamente.  O critério de apuração e os padrões de referência (faixas e classificação) são, evidentemente, bastante subjetivos. Porém podem servir como uma referência, ainda que não absoluta, com o objetivo de gerar alguma reflexão e confrontar a realidade da nossa condição humana.



Antes, deixe-me trazer aqui uma parábola que Jesus contou aos seus discípulos: a parábola dos talentos. Ela é muito ilustrativa do que acontece normalmente na vida social. Diz que um rico proprietário fizera uma longa viagem. Antes, porém, chamou seus servos e lhes distribuiu porções em dinheiro (que na parábola são chamados de talentos) a cada um para que administrassem. Ao retornar, vieram prestar contas. Todos multiplicaram seus talentos, exceto um, justo aquele que recebera menos, que resolveu enterrar o seu único talento. A cada um dos demais servos, que multiplicaram seus talentos, o proprietário recompensou dizendo: “foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei” e àquele que enterrou o talento e não o multiplicou disse “tirai-lhe o talento e dai-o ao que tem mais; pois ao que tem ser-lhe-á dado, mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado”.


Dessa parábola quero pinçar apenas a primeira resposta do proprietário aos seus servos fiéis: “foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei”. 

Todos estamos indignados com o nível de corrupção que atingiu a vida pública brasileira em todos os níveis. E, o pior, em vez de diminuir, a corrupção só faz aumentar.  Chegamos a admitir um “certo grau” de tolerância. Mas será isso correto?

No início dos anos 1990 o Maranhão foi governado por João Alberto, político vinculado ao grupo Sarney e que atualmente também é, como Sarney, senador pelo Maranhão. João Alberto protagonizou então um dos bordões políticos mais lastimáveis, como diria o ex-presidente Lula, desde “nuncaantesnahistóriadestepaís”. Em 1992, candidato a prefeito da Capital, mandou publicar em outdoors por toda a cidade: “Fiz um governo 90% honesto”.  Dr.  Jackson Lago, então prefeito em segundo mandato, patrocinando a eleição de Conceição Andrade, publicou em outros outdoors: “Quem é 90% honesto é 100% desonesto”.  João Alberto foi derrotado e carrega até hoje esse estigma: 90% honesto.

Na época cheguei a dizer que se João Alberto tivesse realmente sido 90% honesto ele já seria, de longe, um dos mais honestos políticos desse país, tal o grau de corrupção que estávamos vivendo. Lastimavelmente talvez hoje ainda seja razoável essa afirmação.  Ao que parece o sistema político não admite uma liderança com o nível de honestidade de100%.

Será que fazer pequenas concessões à ética é aceitável? Será que é razoável alguém ser 90%, 95% (ou outro percentual qualquer) honesto?  Será que uma pessoa que não é fiel no pouco, poderá sê-lo no muito? 


Faça o Teste de Honestidade Pessoal e veja se você tem credibilidade para criticar os políticos.

Marque:  A=Nunca;  B=Às vezes;  C=Geralmente;  D=Sempre

1.       - Fura filas nos bancos, utilizando-se das mais esfarrapadas desculpas?  [      ]
2.       - Fala no celular enquanto dirige?  [      ]
3.       - Estaciona nas calçadas, muitas vezes debaixo de placas proibitivas?        [      ]
4.       - Suborna ou tenta subornar quando é pego cometendo infração?      [      ]
5.       - Troca voto por qualquer coisa: areia, cimento, tijolo, e até dentadura?    [      ]
6.       - Usa o telefone da empresa onde trabalha para ligar para o celular dos amigos? [       ]
7.       - Trafega pelo acostamento num congestionamento?      [       ]
8.       - Para em filas duplas, triplas, em frente às escolas?      [      ]
9.       - Viola a lei do silêncio?    [      ]
10.   - Dirige após consumir bebida alcoólica?    [      ]
11.   - Espalha churrasqueira, mesas, nas calçadas?     [      ]
12.   - Pega atestado médico sem estar doente, só para faltar ao trabalho?   [      ]
13.   - Faz "gato " de luz, de água e de tv a cabo?       [      ]
14.   - Registraria um imóvel num valor mais baixo para pagar menos impostos? [      ]
15.   - Saqueia cargas de veículos acidentados nas estradas?   [      ]
16.   - Compra recibo para abater na declaração de IR para pagar menos imposto? [      ]
17.   - Declararia se negro para ingressar na universidade através do sistema de cotas?  [      ]
18.   - Em viagem a serviço, se o almoço custou 10, pede nota fiscal de 20?  [      ]
19.   - Comercializa objetos doados nessas campanhas de catástrofes?   [      ]
20.   - Estaciona em vagas exclusivas para deficientes?    [      ]
21.   - Adultera o velocímetro do carro para vendê-lo como se fosse pouco rodado? [      ]
22.   - Compra produtos pirata com a plena consciência de que são pirata?   [      ]
23.   - Substitui o catalisador do carro por um que só tem a casca?     [      ]
24.   - Mente a idade do filho para que passe por baixo da roleta do ônibus sem pagar? [      ]
25.   - Emplaca o carro fora do seu domicílio para pagar menos IPVA?   [      ]
26.   - Frequenta os caça-níqueis e faz uma fezinha no jogo de bicho?     [      ]
27.   - Leva do trabalho pequenos objetos, (clipes, envelopes, canetas, lápis)?   [      ]
28.   - Comercializa os vales-transporte e vales-refeição que recebe da empresa?  [      ]
29.   - Ao voltar do exterior mente ao fiscal sobre o que traz na bagagem?  [      ]
30.   - Acha um objeto, com a identificação do dono, mas fica com ele?  [      ]
31.   - Coloca nome em trabalho que não fez?    [      ]
32.   - Coloca nome de colega que faltou em lista de presença?   [      ]
33.   - Paga para alguém fazer seus trabalhos?   [      ]
34.   - Acha uma carteira c/documentos e R$ 1000, devolve mas fica com o dinheiro? [      ]
35.   - Lava a calçada com água tratada?      [      ]
36.   - Fura o sinal quando não há um sensor fotográfico?    [      ]
37.   - Fica com o troco a mais que, por engano, recebeu no caixa do supermercado? [      ]
38.   - Usa os R$1000,00 depositado na sua conta, sem procurar saber a origem?     [      ]
39.   - Bate num carro ao manobrar e, como ninguém viu, vai embora aliviado?     [      ]
40.   - Subtrai pequenos objetos de gôndolas de supermercado e põe na bolsa?      [      ]       


As respostas ao teste coloquei no post anterior. Faça o teste sinceramente, para sua economia pessoal.

Anote num papel as quantidade de respostas A; B; C e D. Só então, veja a apuração no blog anterior.

Mas se você conseguir enganar-se a si mesmo, não precisa olhar a resposta.