Seu Lobo

Seu Lobo
Ele tá vindoooo! Uhauuuu!
Mostrando postagens com marcador Ética. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ética. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de julho de 2012

Mamãe disse que não!




Com essa frase simples, quase imbecil, o maranhense morador de rua em São Paulo justificou a entrega à polícia de um pacote com vinte mil reais em dinheiro vivo que ele e a companheira encontraram escondido por ladrões em uma praça. A população dividiu-se entre os que elogiaram o gesto e os que o consideraram uma burrice. Não foi feita uma pesquisa mas não duvido que essa divisão tenha se dado meio-a-meio, tal o caos ético e moral que vigora no Brasil. Ao simplório maranhense, que saiu de Arari, a 130Km da capital aos 12 anos para fugir da pobreza em busca de um destino melhor, sem alcançá-lo, parece ter restado unicamente o patrimônio moral legado por sua pobre mãe cristã.  Sem qualificação e sem apoio algum, restou-lhe a rua, onde, a seu modo, vivia numa felicidade feita do cotidiano prazer de manter-se vivo, de comer e vagar, de ver a vida passar na pressa dos carros, motos, ônibus, trens e metrôs carregados de gente apressada no mecanismo cruel do vai-e-vem da máquina urbana.

Como gratidão o dono do restaurante de onde o dinheiro fora roubado ofereceu um jantar e também cursos profissionalizantes e emprego para o casal em seu estabelecimento. Comentei com minha esposa que talvez não tenha sido o melhor dos presentes, depois de mais de 30 de uma vida sem horários e responsabilidades.  O tempo dirá. Contudo a ética do pobre homem calou como um soco na cara de nossa brasilidade tosca. Mamãe disse que nunca deveria ficar com coisas que não são minhas. Simples assim. 

terça-feira, 17 de julho de 2012

Coação à mentira.



Ontem tive a audiência de instrução e julgamento do meu caso contra as Óticas Itamaraty.  Trata-se de um processo no juizado de pequenas causas, porque os óculos que deixei pra conserto só foram devolvidos após 64 dias, mais que o dobro do que preceitua o CDC. E, pior, na devolução, recusaram-se a fornecer cópia da OS datada. Recusei-me a receber sem a OS.  Na audiência a empresa ofereceu um acordo na base de 1,5 SM de indenização. Claro que não aceitei, ressaltando que não se tratava somente do valor de 1, 2, 3 ou 4 SMs mas do desrespeito ao CDC e ao cliente. Nada adiantou. Sem acordo, o caso foi para a decisão autocrática da juíza.

Mas o que me marcou profundamente foi que a Reclamada chamou uma “testemunha”. Inicialmente fiquei surpreso. Que testemunha seria essa? E testemunha de que? Quando entra na sala, quem? A pessoa que havia me atendido durante o caso, com muita educação e gentileza, mas que, segundo as “normas da empresa”, recusou-se a dar a cópia da OS. Ela havia me dito na época “o senhor tem até razão, mas eu não posso descumprir as normas da empresa pois é aqui que eu trabalho”.  O meu advogado descaracterizou de pronto o depoimento pois essa pessoa é preposta da Reclamada e parte interessada, seu depoimento estaria antecipadamente viciado pelo interesse. A juíza resolveu, todavia, ouvi-lo como “informante”. E o que o tal “informante” disse?  Pasmem, senhores: disse que os óculos haviam sido devolvidos sim dentro do prazo de 30 dias! E disse sem tremer o rosto! Tentei encará-lo mas ele não me olhou no rosto nenhuma vez.  A juíza perguntou “Quando os óculos foram entregues para conserto?” Ele respondeu “Não me lembro exatamente”. “O mês, pelo menos”, insistiu a juíza. “Não lembro realmente”.  “E quando os óculos foram devolvidos ao cliente?”. Também não me lembro bem, doutora”.  “Nem o mês?”  “Realmente não lembro, são tantos clientes...”.  “Ah, então o senhor não se lembra quando recebeu nem quando devolveu os óculos e quer que eu acredite que cumpriu o prazo de 30 dias, é?”  Silêncio como resposta.  Na inicial constava cópia do e-mail que eu havia passado para a empresa no dia da entrega pedindo para que eles reconsiderassem. A mentira estava mais do que caracterizada.

Triste ver uma empresa do porte das Óticas Itamaraty, com lojas em todas as capitais e principais cidades do nordeste, em cujo site estão escritos os princípios éticos que a norteiam, submeter um de seus bons colaboradores a esse constrangimento. E por que? Por causa de 1,5 SMs!  Mais triste ver um ser humano digno, pai de família, boa pessoa, bom funcionário, educado, gentil, de boa índole, simpático, educado, há cinco anos na empresa, ser constrangido a MENTIR diante de uma juíza, por coação de seu empregador. Mas isso não o redime. Acredito que ele poderia, com jeito e cuidado, argumentar e resistir à coação, recusando-se a mentir daquele jeito.   

Deixo a pergunta:  Se sua empresa propusesse a mesma coisa a você, o que faria? Mentiria em juízo para proteger seu emprego?  Tentaria resistir? O que faria se a empresa insistisse?




quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Inacreditável 2 - Senador Edinho recusa-se a pagar médicos

Realmente o ser humano é imponderável, nunca para de nos surpreender. Um passarinho me contou semana passada que o Senador Edinho Lobão (PMDB-MA) recusa-se a pagar os serviços de alguns dos médicos que participaram do atendimento emergencial e cuidaram dele logo após o acidente automobilístico que por pouco não lhe vitimou, ocorrido na região metropolitana de São Luís, no dia 12 de maio de 2011 (o carro do Senador bateu de frente com uma caminhonete quando ele voltava de inspecionar serviços em seu helicóptero). Uma fatura irrisória diante da fortuna do homem que enriqueceu com uma panificadora em Carajás (trocando pão por pepitas de ouro). Argumentou que não autorizou os procedimentos.  Já se vão 7 meses e o Senador simplesmente diz que não vai pagar e pronto.

Divulgou-se na imprensa que, após o acidente, o Senador permaneceu em estado grave num dos melhores hospitais da capital, sob intensos cuidados. No dia seguinte veio um avião de Brasília, mandado pelo Senado, para leva-lo a São Paulo, com todos os apetrechos de socorro médico. Mas seu estado era tão delicado que não pôde ser transportado. O avião retornou e, dias depois, veio outro para levá-lo.

Como tratava-se de uma informação de um único passarinho, não dei o crédito devido na hora. Ouvi, exclamei, mas fiquei com a pulga atrás da orelha – sempre pode ser contrainformação com motivação política, não é?  Ocorre que, logo depois, tive um encontro ocasional com outro passarinho, mas esse com ninho em casa de médico, que, não só confirmou como acrescentou que quando o Senador Lobão (o pai) soube do caso, teria ficado perplexo e teria se disposto a pagar.  Pediram dos médicos mais uma vez os relatórios das intervenções. Mas até agora, nada.

Quem ouviu deve lembrar-se do Senador Edinho Lobão em entrevista dizer que saía daquele acidente como um novo homem, com muito mais percepção do valor da vida e maior consciência de sua missão!  Algum inocente pode ter alimentado esperanças. Está desculpado. Sempre tendemos a acreditar que a experiência de ver a morte de frente impacta a vida. Pois é, se o novo homem é assim, imagina o velho! Do valor da vida, eu não sei, mas do dinheiro, esse, ao que parece, para o Senador, não mudou nada.  

sábado, 5 de novembro de 2011

Inacreditável Brasil FC


Gente, vou abrir uma série de pequenos textos, tomando de carona o mote do Globo Esporte, naquele quadro “Inacreditável Futebol Clube”, onde eles comentam os lances mais insólitos (isso mesmo, hehe...) dos campos de futebol. 

Vou comentar coisas da vida social e política brasileira que eu leio na mídia que são tão inacreditáveis quanto os mais inacreditáveis dos inacreditáveis gols perdidos. Só que o campo é outro, o da ética, e a bola é a do caráter.

Comecemos pela Câmara dos Deputados. Que lugar poderia ser melhor para essa estreia? (Pior é que tem, e muitos! Lugar para o inusitado no Brasil não falta!). Vamos nos contentar com a Câmara.

Não é que um deputado – só poderia estar dé-PUTADO mesmo o cara – teve a coragem para criar um projeto de Lei para – pasmem, PASMEM! – anistiar os deputados cassados pelo caso do Mensalão?  Acredite, o nome da fera é Ernandes Amorim, do PTB de Rondônia.  É muita cara-de-pau! O sujeito quer apenas anistiar José Dirceu (PT-SP), Roberto Jefferson (PTB-RJ) e Pedro Corrêa (PP-SP). Só isso! E pra beber, um vinhozinho português, quem sabe!
Segundo o Estadão (Jornal O Estado de São Paulo) o texto desse PL corre em conjunto com outro projeto sobre o tema, de Neilton Mulim (PP-RJ), mas que, bem ao contrário, defende a proibição da anistia a agentes públicos.

O pior é que, de uma maneira misteriosa, esse projeto foi PAUTADO para a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça da Câmara) por nada mais nada menos de quem? Quem? Dou um docinho quebra-queixo, daqueles que se vendem no nordeste em tabuleiros na feira!  João Paulo Cunha! Ele mesmo, o que é réu no Mensalão, cuja mulher foi flagrada no caixa do Banco Rural para receber R$ 50 mil do esquema do Mensalão para “pagar a conta da  TV a cabo”. O mesmo que foi reeleito pelos paulistanos, uma injustiça a Tiririca. O mesmo que foi escolhido pelos seus companheiros –  “mais de 300 picaretas” (lembra?) – para ser simplesmente o presidente da CCJ, a comissão mais importante da casa. O mesmo que, de uma maneira cínica, nega o Mensalão até hoje – como minha mãe costumava dizer: “É a faca entrando e ele negando!”:   “Não houve mensalão. Essa é uma injustiça. Falar que houve mensalão é uma injustiça com o PT e com as pessoas envolvidas” – disse em entrevista no programa “É Notícia”, de Kennedy Alencar (http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/tag/joao-paulo-cunha/).

Pego com a mão na massa –  o PL cara-de-pau pautado na CCJ –  João Paulo Cunha pulou de cá, saltou de lá, deu um monte de desculpas esfarrapadas, mostrou-se “surpreso”, disse que não sabia, que deve ter sido um engano. “Nem sei por que isso foi para a pauta. Alguém deve ter pedido para colocar o outro projeto, do Mulim, e esse veio junto”.

Quer saber: pra mim foi tudo orquestrado. Pega um de-putado-zinho obscuro, dá o serviço sujo pra ele fazer e bota na pauta pra ver o que acontece. Se der certo, maravilha! Se não, sai com essa de “surpresa”, como se fosse fácil pautar um PL na CCJ.

É o Inacreditável Brasil FC. A bola murcha do caráter no campo da ética não entra na trave da moral.


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Zeca da cunhada - ou o Caio Fábio nosso de cada dia.



Stephen Kanitz, em artigo publicado na VEJA em janeiro/2002[1] propõe um estudo de caso sobre o valor da ética. Conta a história do Zeca, um nome fictício para um caso real que conheceu.  O Zeca casara com a garota mais linda da turma. Todo mundo babou de inveja! Acontece que a garota tinha uma irmã mais nova ainda mais bonita! E havia uma rivalidade mal resolvida entre elas. Diz que a cunhada andou facilitando e o coitado do Zeca caiu como um patinho e... traçou a cunhada, que, por sua vez, deu um jeitinho pra a mana ficar sabendo. Pronto! Bomba para o Zeca, coitado: perdeu o casamento, metade do patrimônio, teve ferida sua hombridade e seu nome envolto na vergonha.

Kanitz diz que o Zeca, até hoje, mais de 20 anos passados, carrega esse estigma. “Quem, Zeca? Aquele que transou com a cunhada? Há, sim, sei!”  Para Kanitz parece injusta essa marca, pois o erro só durou alguns minutos. Fosse um crime qualquer, a lei teria punido e sua ficha, após cumprida a lei, estaria limpa outra vez! Mas, no caso, o ferir a ética marcou para a vida inteira o pobre do Zeca.  

Historinha deveras interessante!  Ilustra a natureza da ética e suas implicações. Kanitz destaca o quão fortes são os valores éticos de uma comunidade.  Transgredi-los gera consequências permanentes. Não tem cumprimento de pena, não tem ficha limpa, não tem perdão. Sujou, é pra sempre, não tem como apagar – voltar e refazer.

Do ponto de vista civil e criminal, um cidadão terá sua ficha zerada após cumprir a pena determinada pelo estado. Não poderá mais ser barrado em concursos, empregos ou cargos públicos nem sofrer qualquer discriminação civil. Está livre. Com a falha moral, diz Kanitz,  isso não acontece; é para sempre. Não tem jeito: você pode tentar, mas nunca vai conseguir escapar do sorriso maroto mal disfarçado – seu corpo vai lhe trair – quando encontrar com um Zeca da vida por aí, aquele que comeu a cunhada, ou um João que desviou um milhão de reais da Previdência. Essa imagem será prontamente acessada em seu HD cerebral no mesmo instante. E, pode ter certeza, farão o mesmo com você.  Na roda de amigos – Zeca (ou você) ausente – boas rizadas! Para o João da Previdência (ou você), alfinetadas –  Ó aí o cara que desviou 1 milhão do INSS! Passou 3 anos preso, mas agora tá aí, livre e sorridente!  Perdão? Nem pensar!

Kanitz coloca a ética como um valor humano indispensável e permanente. Ninguém pode viver tranquilo sem algum código de ética. Caso rejeite a ética da religião ou a de seus pais, terá que procurar outra que lhe sirva.  Kanitz afirma: ”Se você tem uma religião e não a pratica, se você odeia as pregações de moralidade que seus pais lhe impõem, isso não o exime de procurar um sistema de referência melhor para sua vida, seja uma outra religião, seja uma conduta filosófica, seja um simples livro de auto ajuda.”

Sou fã do Pastor Caio Fábio. Para mim é um gênio! Eu me atreveria a dizer um dos mais geniais pregadores cristãos do planeta! Sua compreensão do Evangelho de Cristo é, a meu ver, inigualável! Mas Caio Fábio cometeu um erro sério em 1999: teve um caso com sua secretária! Houve então um verdadeiro terremoto no mundo evangélico brasileiro. O cara fora presidente da AEvB (Associação Evangélica Brasileira), diretor do projeto Casa da Esperança, no Rio de Janeiro. Fundador da agência missionária VINDE e editor da revista VINDE (uma das primeiras revistas evangélicas vendidas em bancas), conferencista internacional, tinha uma rede de TV por satélite com antenas parabólicas, ministrando cursos no Brasil inteiro! Tive o privilégio de participar da organização de uma conferência evangelística com ele em São Luís-MA, em meados de 1994, onde pusemos 12 mil pessoas no estádio N´Hozinho Santos, coisa que, desde então, o campeonato maranhense de futebol pouco repetiu.

A história de Caio desde o adultério é longa, cheia de detalhes que não vem ao caso. Sua confissão ampla, geral e irrestrita, vale dizer,  não tem paralelo que eu saiba na história do protestantismo brasileiro. Nem seu arrependimento. Hoje, contudo, sua postura crítica e ácida, palavreado agressivo –  às vezes, até chulo ; entrevistas polêmicas, acusações escabrosas, e muitas controvérsias lançam sobre ele uma nuvem de desconfiança e rejeição. Muita gente não o suporta. Outros o odeiam. Alguns o chamam de demônio travestido. Muitos, porém, o amam.

Tirando essa parte birrenta de Caio, uma reação compreensível de quem já comeu o pão-que-o-diabo-amassou, que conhece muito bem os bastidores e não suporta o menor grau de cinismo de certas lideranças e de falsos amigos, quando ele sobe ao púlpito, ou fala no seu site, escreve seus artigos ou prega a Bíblia, abre-se um cenário em nossa cabeça sobre a Graça de Jesus – faz isso com uma habilidade impressionante!  Ele ama Jesus e usufrui sem constrangimento dos benefícios da Graça de Cristo. Apropriou-se como poucos do perdão que Cristo dá ao arrependido.

Faço minhas filtragens, claro, mas aprecio ouvir as mensagens de Caio e ler seus livros. Contudo, cada vez que vejo ou ouço Caio, por mais que eu não queira, o estigma do Zeca invade a cena: o pastor que transou com a secretária! Não permito que esse passado embote minha percepção do seu arrependimento (metanóia) e, principalmente, de sua pregação graciosa, mas não consigo evitar o pensamento. Caio é um ser humano completo, com seus erros e acertos, mais acertos do que erros.  O ponto aqui não é Caio e sim a questão levantada por Kanitz: o quão importante é o código moral e ético de um grupo social.

Zeca, Caio, Collor, Arruda, Dirceu, Delúbio, Valério, Cacciola, Abdelmassih, e tantos outros nos advertem: se queremos ficha limpa perante a sociedade, devemos cuidar de não manchá-la, pois essa mancha não se apagará jamais.

Agora, como sou cristão de linha evangélica – ou melhor dizendo, de linha protestante, vinculado a uma igreja histórica –  deixa eu pontuar aqui sobre o ensino bíblico normalmente aceito entre todos os cristãos:  Deus perdoa! Deus esquece!  O homem não esquecerá nunca o passado. Mas com Deus é diferente. Na Bíblia está escrito que Deus conhece as nossas iniquidades todas. Contudo, “Tornará a ter compaixão de nós; pisará aos pés as nossas iniquidades e lançará todos os nossos pecados nas profundezas do mar.” 

Acredito que, uns mais, outros menos, todos somos Zecas e Caios. Se fossem publicados alguns de nossos maus intentos malsucedidos, ou os bem sucedidos nunca descobertos, nossa reputação atual sofreria sério abalo. Só isso nos deveria conter diante de Zeca e Caio.

Zeca e Caio carregarão seu estigma até a morte. Mas, pelo menos, no que toca a Caio (não conheço o Zeca verdadeiro) posso vê-lo dormir tranquilo na plena certeza de que, perante Deus, no que diz respeito à secretária, tem ficha limpa!